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Intervenção precoce poderia evitar até 50% dos casos de autismo, diz estudo

Embora estimativas da Organização Mundial de Saúde apontem que cerca de 1 em cada 127 pessoas no mundo está no espectro autista, esse transtorno do neurodesenvolvimento continua sendo um dos assuntos mais complexos e polarizados da atualidade.

De um lado, o modelo médico define o autismo como um transtorno com prejuízos funcionais, e, de outro, ativistas da neurodiversidade e muitos pesquisadores entendem o TEA (transtorno do espectro autista) como uma variação legítima do funcionamento humano.

Mas o “caldo entorna” de vez quando se fala de prevenção. Como não há atualmente qualquer forma comprovada de evitar o autismo, toda pesquisa sobre causas genéticas e ambientais desperta temores de uma eugenia. Afinal, por que não usar esse dinheiro de pesquisa melhorando a vida dos 62 milhões de autistas que já existem? — questionam.

Agora, em um novo estudo publicado recentemente na revista Mitochondrion, Robert Naviaux, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), propõe um modelo biológico unificado que conecta genética, ambiente, metabolismo e desenvolvimento cerebral — em vez de tratá-los como explicações concorrentes na origem do TEA.

Embora não afirme com todas as letras que o autismo seja “evitável”, as conclusões do novo modelo sugerem que “até metade de todos os casos de autismo poderiam ser prevenidos ou reduzidos com intervenções pré-natais e na primeira infância”, afirma um comunicado à imprensa.

Os três fatores interligados que aumentam o risco de TEA


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O estudo propõe um modelo biológico que conecta genética, ambiente, metabolismo e desenvolvimento cerebral • Robert Naviaux/Mitochonrion, 2025/Divulgação

Para Naviaux, “nossos resultados sugerem que o autismo não é o resultado inevitável de um único gene ou exposição, mas sim o desfecho de uma série de interações biológicas, muitas das quais podem ser modificadas”, afirma o professor de medicina, pediatria e patologia na Faculdade de Medicina da UC San Diego.

No artigo, o autor propõe o que chamou de modelo metabólico de três fatores interativos, que se alinham:

  1. Predisposição biológica/genética: a criança nasce com uma vulnerabilidade metabólica/mitocondrial, que não é evitável;
  2. Exposição precoce a gatilhos ambientais, como infecções maternas ou infantis, estresse imunológico ou poluição, capazes de ativar uma resposta biológica conhecida como resposta celular ao perigo (RCP);
  3. Persistência ou repetição desses gatilhos durante uma janela crítica do desenvolvimento cerebral, do final da gestação até os dois ou três anos de idade.

O problema, segundo Naviaux, não seria a RCP em si, pois a resposta celular ao estresse é normal e até mesmo necessária. O risco ocorre quando essa resposta não “desliga”, mantendo o organismo em estado de alerta biológico prolongado e desviando energia e sinais biológicos cruciais para a maturação normal do cérebro.

Essa abordagem unificada consegue reunir diferentes achados científicos sobre o autismo em um mesmo modelo explicativo, mostrando como fatores genéticos e ambientais interagem ao longo do desenvolvimento. Isso ajuda a esclarecer por que o autismo é multifatorial e não resulta de uma causa única.

O autismo é uma resposta biológica a fatores ambientais


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O estudo conclui que o autismo é uma resposta biológica a ameaças ambientais que altera a forma como o cérebro humano se desenvolve e funciona • Freepik

Talvez o grande mérito do trabalho de Naviaux seja o de não oferecer respostas fáceis. Com isso, ele amplia o debate científico, mostrando que o autismo emerge, sim, de processos biológicos complexos — sensíveis ao tempo e ao contexto —, mas que compreender esses processos pode levar a cuidados mais personalizados.

Sem fugir do campo marcado por controvérsias, o autor estabelece limites claros: ele não afirma que o autismo seja causado apenas por fatores ambientais, mas também não sugere que pais ou mães sejam responsáveis pelo surgimento do TEA.

Em outras palavras, o artigo deixa claro que a genética não é o destino, ou seja, nenhum gene causa autismo em 100% dos casos, pois ter um gene ou uma mutação associada a uma condição não garante que a pessoa vá manifestá-la.

Embora o modelo sugira que uma fração dos casos de TEA possa não se manifestar se crianças de alto risco forem identificadas antes dos sintomas e protegidas da ativação prolongada da RPC, trata-se de uma abordagem probabilística. Essas intervenções podem reduzir o risco em alguns casos, mas não garantem que o autismo não se desenvolva.

Se há alguma mensagem a ser tirada do artigo atual é que o autismo não é falha, não é erro genético e não é responsabilidade individual. É uma resposta biológica a ameaças ambientais que altera a forma como o cérebro humano se desenvolve e funciona, que pode — e deve — ser acompanhada com conhecimento, cuidado e respeito.

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