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Nem labirintite, nem jet lag: se você se sentir tonto no Japão, não tem nada de errado com a sua saúde

Nem labirintite, nem jet lag: se você se sentir tonto no Japão, não tem nada de errado com a sua saúde

Sentir tontura, dor de cabeça ou um incômodo estranho nos ouvidos ao caminhar em alguns locais no Japão pode parecer consequência do fuso horário, do cansaço da viagem ou até de algum problema de saúde. Mas, na verdade, a causa desse mal-estar pode estar em um dispositivo conhecido como Mosquito, também chamado de tecnologia anti-vadiagem. Usado em cidades japonesas para afastar jovens de espaços públicos, o aparelho emite sons de alta frequência quase imperceptíveis para adultos. A tecnologia, que também já foi adotada em países como Estados Unidos e Austrália, afeta o corpo de forma diferente conforme a idade e levanta questionamentos sobre saúde, ética e controle urbano.

Entenda como funcionam os dispositivos que só jovens conseguem ouvir

Mosquito Advice. Créditos: mosquitoloiteringsolutions

O mosquito anti-vadiagem é um aparelho pequeno e fácil de instalar, utilizado para afastar jovens de espaços públicos. Créditos: mosquitoloiteringsolutions

O funcionamento desses aparelhos se baseia em um fenômeno biológico natural, que é a perda gradual da capacidade de ouvir sons de alta frequência com o avanço da idade. Os dispositivos emitem sons geralmente entre 16 kHz e 18 kHz, faixas que a maioria dos adultos já não percebe, mas que ainda são audíveis para crianças, adolescentes e jovens adultos de até 25 anos.

Como consequência, enquanto pessoas mais velhas passam pelo local sem notar nada de estranho, jovens dizem ouvir um zumbido agudo, persistente e extremamente incômodo. O som não vem acompanhado de nenhuma mensagem, apenas torna o ambiente desconfortável o suficiente para que a pessoa queira ir embora.

Por serem pequenos e fáceis de instalar, esses dispositivos podem ser colocados em postes, fachadas ou áreas externas, e podem operar de forma contínua ou programada para horários específicos, como à noite. Os modelos do Mosquito costumam custar $705, o equivalente a quase 3.500 reais. No Japão, esses dispositivos começaram a ser usados em locais estratégicos, como estações de trem, estacionamentos e áreas comerciais, para evitar aglomerações de jovens durante a noite

Tontura, náusea e dor de cabeça: os sintomas mais relatados

Embora o som não seja classificado como perigoso, ele provoca efeitos físicos desconfortáveis em quem consegue ouvi-lo Dentre os sintomas mais comuns estão tontura, dor de cabeça, sensação de pressão nos ouvidos, náusea, irritabilidade e dificuldade de concentração. Algumas pessoas ainda classificam o incômodo como algo doloroso.

Essas reações explicam por que algumas pessoas se sentem mal ao passar por determinados pontos da cidade, como estações de trem, metrô e estacionamentos. Como o som não vem acompanhado de aviso ou sinalização, o corpo acaba reagindo antes mesmo da causa ser identificada. Muitos, inclusive, nem entendem a causa do mal-estar, especialmente visitantes jovens que não conhecem os dispositivos. 

Em relação à saúde, não se sabe ao certo os efeitos a longo prazo dessa exposição, principalmente em crianças e adolescentes que estão com o sistema auditivo em desenvolvimento. De toda forma, especialistas questionam sobre o uso desses aparelhos como ferramenta de controle social: seria ético “expulsar” grupos de determinados espaços utilizando recursos que provoquem desconforto físico?

Até que ponto a tecnologia pode ser usada como critério de exclusão urbana?

Sem dúvidas algumas, a questão mais controversa desses dispositivos não é apenas o desconforto físico sentido, mas o fato deles afetarem quase exclusivamente um grupo etário específico. São os jovens que são “expulsos” de determinados espaços públicos por meio de um estímulo que os demais não percebem.

Organizações de direitos humanos e especialistas em políticas urbanas afirmam que esse tipo de tecnologia transforma o corpo em ferramenta de controle social, substituindo diálogo, políticas públicas e convivência por um mecanismo invisível de exclusão. A preocupação aumenta quando os principais afetados são crianças e adolescentes, que muitas vezes não têm escolha nem consciência do que está acontecendo.


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Nem labirintite, nem jet lag: se você se sentir tonto no Japão, não tem nada de errado com a sua saúde

foi publicada originalmente

Xataka Brasil

por
Laura Vieira

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