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Helen Greene, a “Bruxa de Wall Street” que lucrou apostando no medo e nas crises

Atravessar meio século de crises financeiras e sair mais rico do que entrou não é um feito comum na história do capitalismo. Poucos investidores conseguiram sobreviver a pânicos, guerras, bolhas especulativas e colapsos bancários sem recorrer a bancos, acionistas ou qualquer tipo de ajuda externa. Foi exatamente isso que fez Helen Greene, uma das figuras mais enigmáticas e bem-sucedidas do mercado financeiro americano do século XIX.

Conhecida pela disciplina extrema, pelo cálculo rigoroso e por uma paciência quase inabalável, Helen construiu sua fortuna em silêncio, longe das manchetes e da ostentação que marcavam os grandes nomes de Wall Street. “Ela entendeu o mercado antes mesmo de o mercado se entender”, resume Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers, ao destacar a singularidade da investidora.

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Nascida em 1834, em Massachusetts, com o nome de Henrietta Holland Robinson, Helen veio de uma família tradicional do setor baleeiro, uma das atividades mais lucrativas da época. Desde cedo, demonstrou facilidade com números e interesse incomum pelas finanças da família, hábito que incluía a leitura atenta dos relatórios e comunicados do próprio pai.

Quando herdou milhões de dólares — uma fortuna que, corrigida pela inflação, equivaleria a cifras bilionárias atualmente — Helen seguiu um caminho oposto ao esperado. Em vez de buscar status ou luxo, decidiu investir. Mais do que isso, desenvolveu um processo próprio, guiado por um princípio central: riqueza não é o que se exibe nos tempos de bonança, mas o que se preserva quando o vento muda.

Comprar medo, vender euforia

Décadas antes de o conceito de value investing ganhar nome e forma, Helen já colocava em prática a lógica de comprar quando os outros vendem. Durante a Guerra Civil Americana, enquanto investidores se desfaziam de títulos do governo dos Estados Unidos por medo da instabilidade, ela via ali uma oportunidade de preços depreciados e aumentava suas posições.

No pós-guerra, o cenário mudou completamente. O país vivia uma explosão de otimismo, impulsionada por ferrovias, petróleo e grandes projetos de infraestrutura. Era a era dos especuladores famosos, como Jay Gould, Vanderbilt e J.P. Morgan, que disputavam poder, influência e manchetes.

Helen, no entanto, jogava outro jogo. Enquanto os grandes nomes acumulavam visibilidade e riscos, ela acumulava liquidez. Em vez de seguir tendências, buscava margem de segurança. Essa postura se mostrou decisiva em 1873, quando o mercado ferroviário entrou em colapso nos Estados Unidos.

No auge do pânico, Helen comprou ativos a centavos, trocando dinheiro por valor em um ambiente de juros baixos e medo generalizado. Foi nesse momento que consolidou sua reputação como a investidora que “comprava ruínas” — uma fama que mais tarde lhe renderia o apelido de Bruxa de Wall Street.

Liquidez como arma estratégica

O apelido também refletia seu estilo de vida austero e calculado. Helen vestia-se quase sempre de preto, evitava hotéis de luxo e carregava pessoalmente seus títulos financeiros. Cada escolha, no entanto, fazia parte de uma estratégia maior: gastar pouco para preservar independência.

Enquanto outros exibiam riqueza, ela comprava tempo. Discrição e liquidez funcionavam como seus verdadeiros instrumentos de poder. Sua atuação era marcada pelo uso sistemático do caixa de forma anticíclica — vendendo em momentos de euforia e acumulando recursos para agir nos períodos de colapso.

Esse método ficou evidente em 1893, quando mais de 500 bancos americanos quebraram. Mais uma vez, Helen aproveitou o caos para adquirir ativos hipotecários de cidades inteiras, ampliando seu portfólio em meio ao desespero do mercado.

O mesmo se repetiu em 1907, durante um dos maiores pânicos financeiros da história dos Estados Unidos. Com os bancos suspendendo resgates e o crédito desaparecendo, Helen passou a emprestar dinheiro ao sistema financeiro, sempre com garantias reais e juros fixos. “Ela fez com capital próprio aquilo que o Federal Reserve só faria anos depois”, observa Collazo.

Um legado que atravessou o tempo

Enquanto J.P. Morgan articulava soluções emergenciais entre banqueiros, Helen atuava como credora de última instância, fortalecendo ainda mais sua posição. Ao final da crise, saiu não apenas mais rica, mas também mais respeitada. No início do século XX, já figurava entre as pessoas mais ricas dos Estados Unidos.

Seu patrimônio chegou a centenas de milhões de dólares, o equivalente a alguns bilhões hoje. Dona de imóveis, títulos e participações em ferrovias, Helen administrava tudo sozinha, anotando à mão juros e vencimentos. Na prática, comandava um family office antes mesmo de o termo existir.

Sua filosofia de investimento pode ser resumida em cinco pilares: caixa é poder; preço importa mais do que tendência; crédito exige colateral; alavancagem deve ser evitada; e paciência é, por si só, uma posição estratégica. Princípios que anteciparam não apenas o value investing, mas também conceitos modernos de gestão de risco.

Tudo isso em um contexto histórico ainda mais adverso. Naquele período, mulheres não podiam votar nem abrir contas bancárias sem autorização. Ainda assim, Helen emprestava dinheiro a bancos e municípios, desafiando tanto a lógica do mercado quanto as barreiras de gênero da época.

Helen Greene morreu em 1916, aos 81 anos, deixando uma fortuna para os filhos e um modelo de gestão que resistiu a crises, guerras e pânicos financeiros. Sua lição permanece atual: não se vence o mercado com pressa, mas com preparo. Em tempos de euforia, ela vendia e fazia caixa; em momentos de pânico, ia às compras. No fim, provou que a paciência é uma das formas mais sofisticadas de poder.

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