Em 1932, Hedy Lamarr realizou o primeiro nu artístico da história do cinema – depois partiu para inventar o Wi-Fi


Ao longo de seus 85 anos, Hedy Lamarr dedicou-se a conectar vidas. Primeiro foi Hedwig Eva Maria Kiesler, nome que recebeu dos pais ao nascer, em Viena, em 1914, e com o qual se destacou como atriz pioneira: a primeira a aparecer nua da cabeça aos pés e a simular um orgasmo num filme comercial.
Por alguns anos, foi também a Senhora de Mandl, esposa e “escrava” (como ela mesma definiria mais tarde essa fase) do vienense Fritz Mandl, um magnata ciumento, controlador e tirânico, que fornecia armas a Hitler e Mussolini. No final da década de 1930, em Hollywood, tornou-se Hedy Lamarr, nome com o qual o produtor Louis B. Mayer a batizou e que a levaria à fama.
Como diva do cinema, era a engenheira Lamarr, que dedicava suas noites a cultivar sua faceta de inventora e conseguiu desenvolver uma tecnologia fundamental para o posterior desenvolvimento da comunicação sem fio em telefones celulares, GPS e tecnologia Wi-Fi. Nos últimos anos de sua vida, ela teve que assumir um papel mais triste: isolou-se em sua mansão na Flórida, obcecada por salas de cirurgia, cleptomaníaca e viciada em remédios.
Uma vida em três atos de uma mulher que percorreu o mundo como se estivesse interpretando seu melhor e mais exigente papel em Hollywood. Lamarr conquistou o título de “mulher mais bonita” da era de ouro do cinema e (no final de seus dias), quando suas contribuições tecnológicas foram reconhecidas, obteve inúmeros prêmios da comunidade científica: o Prêmio Pioneiro, da Electronic Frontier Foundation (EFF), e a medalha Viktor Kaplan, da Associação Austríaca de Inventores e Titulares de Patentes, entre outros. A data de seu nascimento, 9 de novembro, tornou-se o Dia Internacional do Inventor.
Ato Um: primeiro nu do cinema
A futura Hedy Lamarr nasceu em Viena, em 1914, com o nome de Edwig Eva Maria Kiesler. Sua família era judia, culta e rica. Seu pai era um banqueiro próspero de Lemberg e sua mãe, uma pianista de Budapeste criada no catolicismo. Desde a infância, ela recebeu uma educação rigorosa que logo revelou sua prodigiosa inteligência. Conta-se que, com apenas cinco anos de idade, saciava sua curiosidade científica desmontando caixas de música e remontando-as peça por peça.
Kiesler começou a cursar engenharia, mas abandonou o curso para seguir sua outra grande vocação: a atuação. Em 1932, com apenas 19 anos, estrelou seu primeiro grande sucesso: Êxtase, um filme de Gustav Machaty, no qual quebrou paradigmas ao aparecer na tela nua e simulando um orgasmo. A ousadia provocou a revolta de sua família, a indignação de grande parte da sociedade pudica da época e até mesmo a ira do Vaticano.
A vienense fascinou Fritz Mandl, 14 anos mais velho que ela. O magnata conseguiu a aprovação dos pais de Kiesler para o casamento e os dois se casaram em 1933. Mandl, um empresário do ramo de armamentos que trabalhava com os nazistas, logo se revelou um tirano machista. Num acesso de ciúme, tentou comprar todas as fitas de Êxtase para que ninguém pudesse ver as cenas de Kiesler, que foi inclusive proibida de tomar banho ou se despir se não estivesse na presença dele. Ele também a obrigou a acompanhá-lo em seus almoços de negócios.
Cansada dessa escravidão, em 1937 a jovem usou sua engenhosidade para escapar: contratou uma empregada doméstica parecida com ela, a sedou, vestiu-se como ela e conseguiu burlar a vigilância de seu confinamento. Vendeu suas joias e embarcou para os Estados Unidos, após uma escala em Londres. “Ele brincou de me manter prisioneira. Eu brinquei de escapar. Ele perdeu”, contaria mais tarde. Este primeiro ato de sua vida termina com uma fuga emocionante, enquanto os capangas de Mandl a perseguiamm implacavelmente para forçá-la a voltar para sua prisão.
Ato Dois: grande diva de hollywood
O destino aguardava Kiesler logo ali, mais especificamente, no navio em que embarcou para viajar à América do Norte. Lá, encontrou Louis B. Mayer, o famoso produtor, que revelou seu infalível talento para o cinema. Ele lhe ofereceu um emprego e a renomeou Hedy Lamarr, uma homenagem peculiar à atriz Barbara La Marr, cuja vida fora interrompida prematuramente por tuberculose e nefrite apenas uma década antes.
Em Hollywood, Lamarr exibiu todo o seu talento diante das câmeras, conquistou o título de “mulher mais bonita” e interpretou o papel de femme fatale. Ela atuou em filmes como Argel, A Dama dos Trópicos, Camarada X e dezenas de outros títulos. Ela dividiu o palco com algumas das maiores estrelas de Hollywood e dizem que os criadores de Branca de Neve e Mulher-Gato se inspiraram em sua beleza estonteante.
O papel mais famoso que interpretou foi o de Dalila em Sansão e Dalila. Sua fama poderia ter sido muito maior se Lamarr ou seus assessores tivessem sido mais criteriosos na escolha de seus trabalhos. Ela recusou os papéis principais em dois filmes bombásticos que entrariam para a história do cinema: Casablanca (!) e Luz que Agoniza, que juntos renderam quase vinte indicações ao Oscar.
Ao longo de sua carreira, Lamarr também produziu seus próprios filmes. Em sua vida privada, viveu seis casamentos que terminaram em divórcios. Seus últimos dias foram vividos na Flórida, onde se tornou cleptomaníaca, obcecada por cirurgias plásticas, sucumbiu às drogas e protagonizou escândalos notórios. Ela morreu na aurora do novo século: em 19 de janeiro de 2000. “Ela foi uma vítima do sistema”, diz um de seus filhos num dos documentários feitos sobre ela.
A prova de quão pouco a sociedade sabia valorizá-la reside numa história que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando ofereceu sua colaboração aos Estados Unidos como engenheira. A resposta que recebeu foi que seu físico era mais interessante do que seu intelecto. Ela foi incentivada a promover a venda de títulos para as tropas e até participou de uma campanha que recompensava cada compra de US$ 25 mil em títulos com um beijo seu. Em uma única noite, a campanha arrecadou sete milhões de dólares.
Ato Três: engenheira brilhante
O fascínio que aquela vienense sentia na Áustria do período entre guerras ao desmontar e remontar suas caixas de música tem muito a ver com o fato de que hoje podemos conectar nossos smartphones à rede Wi-Fi. Em vez de se entregar à depressão devido ao confinamento a que Mandl a submeteu, Kiesler retomou seus estudos de engenharia com mais intensidade. Anos mais tarde, esse conhecimento permitiu-lhe desenvolver a técnica de transmissão em espectro expandido, decisiva para tecnologias sem fio, como Wi-Fi e Bluetooth. A ajuda do músico George Antheil também desempenhou um papel fundamental em seu trabalho.
A patente do sistema de comunicação secreta de Lamarr despertou o interesse dos militares dos EUA, que acabaram por descartá-lo durante a Segunda Guerra Mundial. Suas aplicações militares foram aproveitadas décadas depois, na crise dos mísseis de Cuba. Apesar do impacto de suas contribuições, Kiesler só obteve reconhecimento perto do fim da vida.
É triste e irônico imaginá-la como uma senhora idosa, sentada em um dos sofás de sua mansão na Flórida, com uma taça de vinho na mão, acompanhando o avanço imparável das telecomunicações na televisão. Em seu rosto, um sorriso amargo, fruto da convicção de que grande parte desse boom tecnológico se devia aos seus esforços e ao trabalho que realizava à noite, em seus anos como diva em Hollywood, escondida de uma opinião pública fascinada por sua beleza e intimidada por sua inteligência.
“Qualquer garota pode ser glamourosa. Tudo o que você precisa fazer é ficar parada e parecer boba”, disse ela certa vez. Um conselho amargo, que ele nunca seguiu, e que retrata a sociedade de sua época.
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A notícia
Em 1932, Hedy Lamarr realizou o primeiro nu artístico da história do cinema – depois partiu para inventar o Wi-Fi
foi publicada originalmente
Xataka Brasil
por
PH Mota
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