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Europa enfrenta problema maior que o da Rússia: drones não podem ser armazenados por mais de oito semanas

Europa enfrenta problema maior que o da Rússia: drones não podem ser armazenados por mais de oito semanas

Durante anos, muitos países europeus abasteceram enormes depósitos subterrâneos com munição capaz de permanecer operacional por décadas. Alguns projéteis armazenados na Finlândia estão há mais de 30 anos sem perder a eficácia. No entanto, as armas que redefinem os conflitos atuais operam com softwares, rádios e chips que mudam num ritmo muito mais próximo ao da eletrônica de consumo do que ao da artilharia tradicional. Essa diferença está forçando as forças armadas a confrontarem uma questão inesperada: como se preparar para futuras guerras em que a tecnologia militar envelhece quase tão rápido quanto um simples telefone celular.

Rearme na era dos drones

A defesa europeia se baseava em uma lógica relativamente simples, herdada da Guerra Fria: encher depósitos com munição, mísseis, minas ou projéteis de artilharia capazes de permanecer operacionais por décadas. Em países como a Finlândia, como já mencionamos, existem depósitos camuflados com enormes reservas de munição armazenadas há anos e que permanecem totalmente utilizáveis.

No entanto, a guerra na Ucrânia demonstrou que o campo de batalha do século XXI gira cada vez mais em torno de drones de baixo custo, softwares e guerra eletrônica, levando a OTAN e os governos europeus a repensarem seus investimentos. A próxima cúpula da aliança discutirá precisamente como redirecionar parte dos gastos militares de sistemas tradicionais (como tanques ou artilharia pesada) para tecnologias emergentes baseadas em drones, inteligência artificial, satélites e redes digitais, numa tentativa de adaptação a uma forma de guerra em que a velocidade da inovação é tão importante quanto o poder de fogo.

Drones tornam-se obsoletos

Essa mudança estratégica revelou um dilema inesperado. Ao contrário de um projétil de artilharia ou um míssil, que podem ser armazenados por décadas, os drones dependem de software, comunicações e componentes eletrônicos que evoluem a um ritmo vertiginoso. A experiência na Ucrânia mostrou que um modelo dominante na linha de frente pode se tornar inútil em poucas semanas devido a novos sistemas de interferência, mudanças de frequência ou melhorias na navegação autônoma.

É por isso que diversas autoridades europeias alertam que estocar um grande número de drones pode ser inútil: porque, quando chegarem ao campo de batalha, muitos já estarão obsoletos. Até mesmo governos estimam que certos modelos podem se tornar obsoletos em apenas oito semanas, uma realidade que rompe completamente com a lógica clássica de acumular arsenais por anos em preparação para um futuro conflito.

Drone

Guerra eletrônica e o ciclo de vida de uma arma

A principal razão para essa obsolescência acelerada reside não tanto no hardware do drone, mas sim no ambiente eletrônico em que ele opera. Na frente ucraniana, a constante luta pelo domínio do espectro de rádio força a troca contínua de frequências, antenas, rádios e sistemas de controle para evitar interferências inimigas.

Um drone que funciona corretamente hoje pode parar de funcionar em questão de dias se o adversário desenvolver novas técnicas de interferência. Portanto, o que realmente envelhece não é a estrutura física do drone, mas seu ecossistema digital: software, links de dados e algoritmos de navegação. Nesse contexto, o ciclo de vida de um drone é mais semelhante ao de um telefone ou computador do que ao de um tanque ou míssil, tornando as atualizações constantes essenciais para que o drone não se torne obsoleto.

Paradoxo industrial

Este fenômeno apresenta aos governos um paradoxo industrial complexo. Para se preparar para uma crise, a Europa precisa de uma indústria capaz de produzir drones em larga escala rapidamente, mas produzi-los muito cedo pode ser contraproducente, pois se tornariam obsoletos antes mesmo de serem usados.

Alguns fabricantes argumentam que a única maneira de resolver esse dilema é comprar drones agora para treinar as forças armadas, desenvolver doutrinas e construir uma base industrial capaz de aumentar a produção em caso de guerra. No entanto, mesmo as empresas mais otimistas reconhecem que multiplicar a produção tem limites: elas podem multiplicar a produção por dez em uma emergência, mas dificilmente por cem da noite para o dia.

Revolução militar

Apesar dos desafios, a lógica estratégica dos drones é inegável. Analistas e empresas do setor apontam que, pelo preço de dois tanques Leopard, um país poderia implantar centenas de drones de ataque capazes de deter unidades blindadas inteiras. Essa mudança econômica está transformando a maneira como pensamos sobre a guerra: sistemas baratos e numerosos podem neutralizar plataformas pesadas que, por décadas, simbolizaram o poderio militar.

A Bloomberg noticiou que a OTAN está estudando como combinar equipamentos tradicionais com novas tecnologias digitais para reduzir a diferença em relação aos Estados Unidos e se adaptar ao novo ambiente operacional.

Futuro do rearmamento

Em resumo, e à luz dessa nova realidade, muitos governos europeus acreditam que a solução não é tanto encher depósitos com drones, mas sim criar ecossistemas industriais capazes de se adaptar e produzir rapidamente versões atualizadas quando necessário. Isso implica, a priori, conectar forças armadas, desenvolvedores de software, engenheiros e fabricantes em um ciclo contínuo de inovação que permita que os sistemas sejam modificados diversas vezes ao ano.

Assim, em vez de arsenais estáticos, o objetivo passa a ser uma indústria flexível, capaz de evoluir no ritmo da guerra eletrônica. Em outras palavras, o grande desafio do rearme europeu não é mais simplesmente gastar cada vez mais dinheiro para estocar armas como se não houvesse amanhã, mas aceitar que, na guerra do século XXI, mesmo as armas mais decisivas podem se tornar obsoletas antes mesmo de saírem do depósito.

Imagem | Aerospace, Serviço Estatal de Guarda de Fronteiras da Ucrânia


A notícia

Europa enfrenta problema maior que o da Rússia: drones não podem ser armazenados por mais de oito semanas

foi publicada originalmente

Xataka Brasil

por
PH Mota

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