Venezuela sinaliza avanço à “segunda fase” de plano dos EUA para pós-Maduro
Com Delcy Rodríguez há quase duas semanas como presidente em exercício e os Estados Unidos tendo consolidado a tutela sobre toda a cadeia petrolífera da Venezuela, o país sul-americano começa a se voltar para a questão dos presos políticos e a necessidade de atrair investimentos externos.
Ambos elementos constam no que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, apontou como a “segunda fase” do plano americano para a Venezuela pós-captura de Nicolás Maduro. Esta etapa combinaria a anistia e a libertação de presos sob motivação política e a facilitação ao acesso de empresas estrangeiras à Venezuela.
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A fase foi chamada por Rubio como de “recuperação”. A primeira, de “estabilização”, visaria impedir que a Venezuela “mergulhe no caos”. A terceira e última, de “transição”, foi resumida como o momento em que o povo venezuelano determinaria o “futuro” do país — o que indica que seria a etapa em que se celebraria eleições presidenciais.
Delcy anunciou, nesta quinta-feira (15), que seu governo vai enviar à Assembleia Nacional (o Poder Legislativo da Venezuela) um projeto de lei para reformar a Lei de Hidrocarbonetos, que prevê a participação do Estado venezuelano sobre toda a cadeia produtiva do petróleo e que foi fortalecida sob o ex-presidente Hugo Chávez.
Delcy quer institucionalizar na Lei de Hidrocarbonetos mecanismos emergenciais da Lei Antibloqueio, de 2020, que permitiu a flexibilização da participação do Estado venezuelano em contratos com petrolíferas privadas, de modo a contornar sanções contra o país.
Assim, Delcy atenderia a anseios de petrolíferas privadas que, pressionadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizem que só colocariam dinheiro na Venezuela sob garantias de que não sofreriam perdas como as ocorridas com a nacionalização da indústria petrolífera no país sul-americano.
DOMINGO (18), ÀS 22H: WW ESPECIAL – UM ANO DE TRUMP: O QUE SOBROU?
Enquanto Delcy anunciava o projeto em Caracas, a principal opositora ao regime chavista, María Corina Machado, se reunia com Trump em Washington. Esta foi a primeira vez que a venezuelana se encontrou com o presidente americano desde a operação que capturou Maduro para julgamento nos EUA em relação ao tráfico de drogas.
Maria Corina deu de presente a Trump a medalha que recebera pelo prêmio Nobel da Paz em 2025. A opositora disse que pôde “conversar com calma” com Trump sobre as “expectativas e sonhos do venezuelano” e afirmou que ficou “muito impressionada” com a “clareza” do líder americano sobre o contexto da Venezuela.
“E assegurei a ele que a sociedade venezuelana está unida. Que, hoje, mais de 90% dos venezuelanos querem a mesma coisa: viver em liberdade, com dignidade, com justiça, e queremos nossos filhos de volta para casa — e, para que isso aconteça, é preciso haver democracia”, declarou Corina.
“Podem ter certeza de que o presidente Trump está comprometido com a liberdade de todos os presos políticos na Venezuela e com a liberdade de todos os venezuelanos”, acrescentou a líder opositora, fazendo referência ao processo que está em curso atualmente no país.
Na quarta (14), Delcy disse que o país continuará realizando libertações e que até 406 pessoas seriam colocadas em liberdade até o fim daquele dia. A organização Foro Penal, que monitora a situação dos Direitos Humanos na Venezuela, listava 806 presos por motivações políticas no país em 5 de janeiro.
“A mensagem é muito clara: uma Venezuela que se abre para um novo momento político. Que permite a compreensão a partir da divergência e da diversidade político-ideológica, mas que deve ser feita com respeito ao próximo e aos Direitos Humanos”, declarou Delcy Rodríguez na quarta.
Ao WW, o professor de Relações Internacionais Eduardo Viola ponderou que a estrutura repressiva na Venezuela vai além do Estado, incluindo, também, a ação dos chamados “coletivos” (grupos paramilitares armados). E destacou estas facções como um dos motivos para os EUA optarem por uma transição sob liderança chavista.
“[Uma transição com María Corina e Edmundo González] nunca teria sido possível; isso é ingenuidade da oposição”, afirmou Viola, que ministra aulas na USP (Universidade de São Paulo) e na FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Já o CEO da consultoria Arko Advice Internacional, Thiago de Aragão, destacou que, em um ano de eleições legislativas nos EUA, Trump deve valorizar a presença americana na Venezuela para assegurar, sobretudo, o voto de eleitores latinos para candidatos republicanos.
“E a política externa ocupa o espaço no noticiário que seria ocupado pela questão do Jeffrey Epstein, que ainda é extremamente forte nos EUA, com coisas surgindo todos os dias”, acrescentou Thiago de Aragão, fazendo referência às ligações entre Trump e a rede de exploração sexual mantida pelo financista, que morreu na prisão em 2019.


