Por que temos fiapos no umbigo? Só uma revista científica topou explicar: conheça a história da tresloucada publicação Medical Hypotheses


Em 2005, o escritor Mark Leyner e o médico Billy Goldberg publicaram Por que os homens têm mamilos, um divertidíssimo livro de divulgação científica no qual respondiam perguntas muito malucas: desde o motivo de nos crescerem pelos nas orelhas até as razões fisiológicas pelas quais os aspargos perfumam o xixi. No entanto, não conseguiram responder a uma pergunta-chave: de onde vinham os fiapos do umbigo?
Quatro anos depois, Georg Steinhauser quis compartilhar sua resposta com o mundo. Segundo ele, os fiapos do umbigo estavam relacionados fundamentalmente aos pelos abdominais. Para ele, os pelos recolhiam as fibras da roupa e as conduziam até o umbigo. Ele fez experimentos durante três anos depilando peitos para verificar as diferenças! Mas ninguém quis publicá-lo.
Ninguém? Não! Uma revista topou publicar o texto: a Medical Hypothesis, originalmente lançada em 1975. Não foi surpresa: essa publicação, povoada por irredutíveis cientistas malucos, resiste até hoje às mais elementares práticas de controle dos periódicos científicos contemporâneos. A seguir, conheça a história dessa revista nada convencional.
Contra o “aburguesamento” da ciência
Nos últimos anos, as coisas “baseadas em evidências” vêm desfrutando de uma fama sem precedentes. Da política à medicina, milhares de profissionais voltaram os olhos para a ciência em busca de soluções com as quais responder aos problemas de uma sociedade cada vez mais complexa.
No entanto, nem tudo que reluz é ouro: uma e outra vez, voltamos a refletir sobre um dos pontos cegos dessa abordagem: o conservadorismo da natureza. Não no sentido político, mas no sentido epistemológico. Ou seja, conhecemos melhor aquilo que já temos; porém, quando o que temos não funciona, isso vira um problema.
Um problema porque, sem recursos para investigar novas opções, somos obrigados a implementar intervenções que não funcionam, o que deixa muitos profissionais de mãos atadas. Por boas razões, é verdade. Mas de mãos atadas. Não é estranho, claro, que haja gente que queira mais diversidade. Este é o caso da Medical Hypotheses, a revista mais tresloucada da ciência dos últimos 40 anos.
Medical Hypotheses foi fundada pelo fisiologista David Horrobin, que a dirigiu até sua morte, em 2003. Horrobin, que já era por si só uma figura controversa (o British Medical Journal o definiu como um dos maiores “vendedores de óleo de cobra de sua época”), criou uma revista à sua imagem e semelhança.
Divertida, refrescante e perigosa
Em teoria, a ideia era construir um fórum respeitável para debater ideias pouco convencionais sem as restrições dos padrões das publicações científicas atuais, como forma de impulsionar a diversidade ameaçada pelo monocultivo acadêmico. A Medical Hypotheses queria ser um lugar para levar intuições, ideias extravagantes e teorias malucas. Em um mundo como o científico, cheio de certezas e frases no presente do indicativo, a revista de Horrobin era feita de “e se” e condicionais.
Isso a torna uma revista profundamente divertida e refrescante, mas também a transforma em uma caixa de bombas. Tanto é possível ler um estudo que relaciona o uso de salto alto à esquizofrenia quanto outro sobre as semelhanças entre pessoas com síndrome de Down e asiáticos. Recentemente, tem circulado pelos tabloides de meio mundo um estudo sobre se podemos “nos abandonar” a tal ponto que possamos acabar morrendo por pura psicologia.
Durante anos, o mundo foi uma festa na Medical Hypotheses. Nos primeiros números, escreveram pioneiros de alguns dos campos mais promissores da época. Mas seu principal trunfo é também seu principal problema. É uma revista que exige um editor muito habilidoso para transitar por terrenos controversos sem publicar trabalhos mal-intencionados e até perigosos.
O fim da festa
Quando Horrobin morreu em 2003, foi substituído por Bruce G. Charlton. Horrobin havia deixado escrito que Charlton era a única pessoa em quem realmente confiava para continuar seu trabalho. No fim de 2009, um artigo que afirmava que “não existia nenhuma prova de que o HIV causasse a AIDS” foi publicado na revista. A festa tinha acabado.
O artigo havia sido rejeitado por todas as publicações da área de pesquisa até parar em Medical Hypotheses. O escândalo foi enorme, e a Elsevier, dona e editora da revista, demitiu Charlton poucos meses depois.
Além disso, numa tentativa de conter os danos, a Elsevier introduziu um sistema de revisões que era um meio-termo entre o sistema original da revista e a revisão por pares das publicações tradicionais. Isso ia claramente contra a razão de ser da revista, gerando protestos de centenas de pesquisadores. Apesar disso, a revista continua sendo publicada até hoje.
A Medical Hypotheses é, de certa forma, um símbolo da ciência arriscada, indomável e (muitas vezes) imprudente de que ainda precisamos, mas que já não ocupa um papel central no debate público. Hoje em dia, os preprints (e os repositórios que armazenam esses rascunhos em aberto — com o arXiv.org à frente) cumprem essa função. Uma função que, apesar de nos dar dor de cabeça, é melhor que nunca se perca.
Imagem | Pexels
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
–
A notícia
Por que temos fiapos no umbigo? Só uma revista científica topou explicar: conheça a história da tresloucada publicação Medical Hypotheses
foi publicada originalmente
Xataka Brasil
por
Victor Bianchin
.


