Houve uma época em que a Apple usava chips da Samsung; hoje, os coreanos estão à frente com seu processo de 2nm, enquanto o iPhone terá que esperar


Lembro-me da apresentação do primeiro iPhone. Foi uma revolução, mas uma revolução que se apoiou nos ombros de gigantes. E um desses gigantes, ironicamente, era a Samsung. O primeiro iPhone tinha um processador fabricado por eles, e esse foi o início de uma relação estranha e tensa. A Apple projetou o futuro, mas a Samsung o fabricou.
O chip A4 que equipava o iPad original e o iPhone 4, o A5 no iPhone 4s e no iPad 2, e até mesmo o A7 no iPhone 5s, todos se originaram nas fábricas de sua maior rival. Mas essa coexistência, forçada pela necessidade, durou pouco. Porque a Apple, em sua obsessão pelo controle total do produto, não podia depender de sua principal concorrente. E o ponto de ruptura definitivo, aquele que empurrou a Apple para os braços da TSMC, teve um nome que muitos se lembrarão: “Chipgate“.
O escândalo “Chipgate” no iPhone 6s: a gota d’água
Em 2015, com o iPhone 6s, a Apple fez algo que não repetiu desde então: dividiu a produção do seu chip A9 entre dois fornecedores, a TSMC e a Samsung. Teoricamente, ambos os chips deveriam ser idênticos. Na prática, não eram. Usuários mais experientes e análises iniciais revelaram que os modelos do iPhone 6s equipados com o chip da Samsung tendiam a esquentar mais e, consequentemente, ofereciam menor duração da bateria do que os modelos com o chip da TSMC.
A diferença foi significativa o suficiente para gerar controvérsia. Para a Apple, confirmou seus piores temores, e o “Chipgate” foi a desculpa perfeita para iniciar a separação. A Apple apostou tudo na TSMC, e a mudança foi um sucesso estrondoso, trazendo-nos o domínio absoluto do Apple Silicon.
A Samsung assume a liderança com 2nm
Avançando uma década. Agora, a Samsung deu um passo importante, buscando reescrever a história. Anunciou o Exynos 2600, o primeiro chip móvel do mundo fabricado com um processo de 2 nanômetros. Os números são impressionantes: 39% mais desempenho de CPU e uma melhoria espetacular de 113% na NPU para inteligência artificial local. No departamento gráfico, sua nova GPU promete dobrar o desempenho. Todo esse arsenal estreará na próxima família Galaxy S26.
Ciente de sua má reputação em relação ao superaquecimento, a empresa deu ênfase especial ao seu novo sistema térmico Heat Path Block (HPB), projetado para evitar o superaquecimento do chip, seu histórico calcanhar de Aquiles.
Um A20 para o iPhone 18 e uma transição gradual
A Apple reinou absoluta com seus chips de 3 nm, uma tecnologia que explorou ao máximo por três gerações com os chips A17 Pro, A18 e A19. O próximo grande salto está previsto para 2026, com os chips A20 e A20 Pro. Esses serão os primeiros chips da Apple fabricados usando o processo de 2 nm da TSMC e estrearão no iPhone 18 e no iPhone dobrável.
As promessas da sua parceira TSMC são mais conservadoras: 15% mais desempenho ou 30% menos consumo de energia. E aqui está o ponto crucial. O iPhone já é capaz de tudo em termos de potência. O desafio não é apenas torná-lo mais rápido, mas sim mais eficiente. Desempenho desenfreado sem boa eficiência acaba sobrecarregando o processador, algo que já vimos com muita frequência. A Apple prefere um chip que mantenha sua potência por horas, em vez de um que bata recordes por cinco minutos e depois desligue.
Além disso, há outro desafio: a produção em larga escala. A Apple precisa de dezenas de milhões de unidades perfeitas para lançar um iPhone 18 e um telefone dobrável globalmente. Ela precisa de uma linha de produção tão bem ajustada quanto a da TSMC, que tem demonstrado uma capacidade industrial impecável ano após ano. A Samsung chega lá primeiro, sim, mas o desafio da Apple é alcançar todos sem problemas. Porque, como vimos este ano, os iPhones foram os modelos mais vendidos. E o Samsung Galaxy S25 nem sequer aparece na lista.
E embora possa não parecer, o processo de 2nm da Samsung pode ser muito benéfico para a Apple
Pode parecer contraditório, mas a liderança da Samsung nessa tecnologia pode ser uma excelente notícia para a Apple. Hoje, vemos isso como uma ameaça competitiva ao Galaxy S26, mas, a longo prazo, é um Plano B.
Já vimos que depender de um único fabricante tem seus riscos. Antes era a Samsung, agora é a TSMC. Embora o relacionamento com a empresa taiwanesa seja idílico, a Apple sabe que não pode colocar todos os ovos na mesma cesta para sempre. Aliás, rumores de negociações com a Intel para fabricar chips nos EUA já apontam para essa necessidade de diversificação.
Agora sabemos que a Samsung já domina a tecnologia de 2nm, justamente o padrão que a Apple busca para o futuro. Se os coreanos demonstrarem com o Exynos 2600 que superaram seus problemas de temperatura e eficiência, eles se tornam uma alternativa real na mesa de negociações. Além disso, o degelo já começou: as políticas de Donald Trump forçaram a Apple e a Samsung a colaborarem novamente, fabricando sensores de câmera no Texas.
Se a Samsung continuar a avançar e aprimorar sua tecnologia, quem sabe se veremos um processador da “Série A” saindo de suas linhas de produção novamente no futuro? Pelo menos agora a Apple sabe que há mais um concorrente a ser observado na corrida dos 2nm. E mais, ela acaba de cruzar a linha de chegada em primeiro lugar.
Texto original de Guille Lomener
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A notícia
Houve uma época em que a Apple usava chips da Samsung; hoje, os coreanos estão à frente com seu processo de 2nm, enquanto o iPhone terá que esperar
foi publicada originalmente
Xataka Brasil
por
Fabrício Mainenti
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